Monday, August 18, 2014

Termina a 42ª edição do Festival de Gramado

O cinema brasileiro vem, gradativamente, mostrando uma diversidade que espelha a própria cultura do país. Um bom exemplo disso são os vencedores da 42ª segunda edição do Festival de Gramado, que terminou no último sábado, 16 de agosto. Ao todo foram oito concorrentes a melhor filme, produções bem diferentes umas das outras.

Narrando a inusitada história de um homem de 92 anos que decide passar a noite com uma mulher 55 anos mais nova,“A Despedida”, de Marcelo Galvão venceu  em quatro categorias, Melhor Diretor, Fotografia, Ator, para Nelson Xavier e Atriz, para Juliana Paes.

O prêmio de Melhor Filme, segundo a imprensa, ficou com a comédia musical “Sinfonia da Necrópole”. Já para o público o melhor filme foi o infanto-juvenil “O Segredo dos Diamantes”, de Helvécio Ratton.

Mas o grande vencedor da noite foi o épico “A Estrada 47”. O longa-metragem que levou o Kikito de Cristal de Melhor Filme é uma co-produção entre Brasil, Portugal e Itália e conta a histórias de pracinhas brasileiros durante a segunda guerra mundial.

Monday, August 11, 2014

RESISTIR É PRECISO - O CINEMA DE JAFAR PANAHI

De vez em quando aparece na constelação cinematográfica uma estrela que reluz mais do que as outras. Algumas vezes não percebemos seu brilho, tamanha sua intensidade. Este é o caso de Jafar Panahi, que depois de Abbas Kiarostami, é o cineasta iraniano mais conhecido no ocidente.

Para alguns o cinema é um instrumento de reflexão sobre a realidade. Para outros é puro entretenimento. Para Jafar Panahi, cinema é a arte da resistência. Autor de uma cinematografia crítica que sempre direcionou suas narrativas contra o sistema político do Irã, ele conseguiu criar um conjunto de filmes extremamente prestigiados nos festivais internacionais.

Toda essa repercussão que ele conseguiu nos principais circuitos cinematográficos mundiais acabou se transformando, ironicamente, em motivo de perseguição política. Em 2010 Jafar Panahi foi condenado a seis anos de prisão e proibido de filmar por 20 anos. Entre idas e vindas da cadeia ele conquistou, pelo menos, o direito de cumprir pena em prisão domiciliar.

Em 2011 o diretor conseguiu burlar a proibição de filmar e contrabandeou o documentário “Isto não é um Filme” para o Festival de Cannes. O filme, que chegou à frança num pendrive escondido num bolo, ironizava e denunciava sua condição de artista preso na própria casa.

Agora ele desafia mais uma vez a justiça iraniana e lança “Cortinas Fechadas”, docudrama metafórico onde ele intensifica a crítica à sua falta de liberdade criativa. É um filme sobre o fazer artístico e sobre pessoas que se valem de todas as armas para continuarem se expressando.

Gravado escondido, com poucos atores e material técnico escasso, “cortinas fechadas” é uma obra simples e singela que tem total consciência de condição de manifesto. É o cinema assumindo sua qualidade utópica de agente modificador da sociedade.


Monday, August 04, 2014

GUARDIÕES DA GALÁXIA

Desde que a Marvel se estabeleceu como estúdio de cinema ela vem criando uma espécie de gênese cinematográfica. Todos os seus personagens estão ligados de alguma forma. Homem de Ferro, O Incrível Hulk, Thor e Capitão América funcionam separadamente, mas na realidade fazem parte de uma grande história.

Continuando sua jornada cinematográfica a Marvel lança aquele que é, sem a menor dúvida, seu projeto mais ambicioso, “Guardiões da Galáxia”. Ambicioso porque o filme não tem nenhum de seus personagens mais populares, ou seja, aposta mais do que audaciosa. E para a surpresa de muita gente esta talvez seja a melhor adaptação que o estúdio já realizou.

Guardiões é uma daquelas raras exceções que assumem, sem constrangimento, seu caráter de entretenimento, e digo isso sem nenhum sentido pejorativo, é entretenimento e de ótima qualidade.

A história gira em torno de um grupo de heróis desajustados e ambíguos que por mera coincidência acabam se reunindo na tentativa de salvar a galáxia. Falando assim parece uma historinha boba cheia de clichês, mas o desenvolvimento dela é excepcional.

Dirigido por James Gunn o filme tem um tom irônico e farsesco e um humor ácido que encanta e prende a atenção do público desde o começo. E o mais interessante é que grande parte desse sucesso se deve a dois personagens gerados totalmente por computação gráfica, o guaxinim Rocky, que tem a voz do ator Bradley Cooper, e a árvore ambulante Groot, melhor interpretação de Vin Diesel em toda sua carreira.

Homenageando as cine-séries dos anos 40 guardiões da galáxia, não por acaso, se aproxima por diversas vezes de um clássico da ficção científica, star wars, o original de 1977. Se tudo isso não bastasse ainda tem a magnífica trilha sonora que traz grandes nomes da música pop dos anos 70 e 80, como Jackson Five e que ainda tem papel significativo na sub-trama do filme.

Fortíssimo candidato a se tornar uma daquelas produções cult, Guardiões da Galáxia vale cada centavo pago em seu ingresso. É só deixar a caretice de lado e mergulhar nessa deliciosa aventura.


Wednesday, April 09, 2014

OS DILEMAS DE ARONOFSKY

Darren Aronofsky é com certeza um dos mais talentosos diretores do cinema atual. Ele nasceu em Nova York e se formou na universidade de Harvard, onde estudou cinema, interpretação e animação e desde o início adotou um estilo que mescla magistralmente sentimento e razão.

Perfeccionista como poucos ele começou a criar o conceito de seu primeiro filme em 1996. Dois anos depois chegava aos cinemas o perturbador “Pi”. Utilizando uma técnica conhecida como Hip Hop Montage, que vai marcar toda sua carreira, ele estabelece um padrão para o símbolo que dá nome ao filme, e vai gradativamente se aprofundando na loucura de seu protagonista.

E a loucura acabou se tornando quase uma obsessão para o cineasta, de uma forma ou de outra ela sempre está presente em seus trabalhos. Em “Réquiem para um Sonho” o desequilíbrio mental tem como ponto chave o mundo das drogas. Já num de seus mais elogiados filmes, “Cisne Negro”, ele traz tons ainda mais nefastos para o balé “O Lago dos Cisnes”, de Tchaicovsky. À medida que acompanhamos o sacrifício de uma bailarina em busca da perfeição, mergulhamos nos pesadelos da personagem.

Sem nunca deixar de lado esse embate entre o real e o imaginário, em certo momento ele volta suas lentes para o próprio homem. No belíssimo “Fonte da Vida”, Aronofsky aborda a eterna busca pela imortalidade e por respostas fundamentais para a existência. Já com o tocante “O Lutador” o cineasta torna explícita toda fragilidade de seu protagonista que teima em viver num passado glorioso, mas que inevitavelmente se vê obrigado e lidar com seu verdadeiro ringue: a própria vida.

Intimista e ao mesmo tempo inquieto, Darren Aronofsky está sempre nos colocando contra a parede. Mesmo em “Noé”, produção um pouco diferente de seus outros trabalhos, ele questiona a própria natureza do ser humano. Abraçando o criacionismo e o evolucionismo (fato explicitado numa belíssima sequência em que acompanhamos todo processo de evolução da terra) ele pergunta: em nossa essência somos bons ou maus? Qual o nosso papel perante o desenvolvimento do planeta?

Assistir a filmes com a assinatura de Darren Aronofsky nunca é uma experiência enfadonha. Independente da produção ele não se cansa de nos conduzir pelas suas viagens existencialistas. E ainda que você não concorde, é impossível ficar impassível diante das imagens que ele destila pela tela do cinema.  



Thursday, March 27, 2014

NOVOS DETALHES SOBRE INTERESTELAR DE CHRISTOPHER NOLAN

A nova ficção científica de Christopher Nolan (A Origem), estreia no final deste ano, mas o diretor ainda prefere não revelar muita coisa sobre a produção. Mesmo assim, ele respondeu as perguntas que jornalistas fizeram sobre o filme durante a CinemaCon, em Las Vegas (EUA).
O longa é baseado em teorias científicas do astrofísico Kip Thorne e apresenta a trajetória de um grupo de exploradores que viajam através de um buraco do tempo para entrar em outra dimensão. Nolan confirmou que a trama focará nos chamados “buracos de minhoca”, que tornam possíveis essas viagens, e disse que o tom da história será bem diferente daquele presente em seus trabalhos anteriores.
O cineasta também declarou que a maioria das cenas de Interestelar foram rodadas com câmeras IMAX e prometeu uma experiência cinematográfica aurática para os espectadores: “Estamos fazendo parcerias com estúdios e exibidores, porque acredito que os aspectos técnicos desse filme são mais importantes que os de qualquer outro que eu já fiz. Temos planos ambiciosos para que os donos de cinema consigam oferecer às audiências uma experiência realmente imersiva”. Apesar da utilização do IMAX, Nolan reforçou seus comentários pouco simpáticos ao 3D e disse que essa tecnologia não é a melhor para espectadores em uma mesma sala de cinema.
Além disso, o diretor falou que tentou evitar o uso de computação gráfica o máximo possível. Ele filmou várias sequência em cenários que se pareciam muito com o interior de espaçonaves e posicionou monitores com imagens reais do lado de fora para que os atores pudessem ver o que os personagens estariam observando. “Rodamos as cenas como um documentário, como se realmente estivéssemos lá, e acho que isso contribuiu muito para o desempenho dos atores, que conseguiram entender o que estavam fazendo”, afirmou.
Em relação ao elenco, Nolan elogiou Michael Caine (Batman Begins), que participou de vários de seus longas, e contou que ele é seu “amuleto da sorte”: “Gosto de escalar Caine para meus filmes para que ele seja um exemplo para os outros atores. Se todos trabalharem tão bem como ele, o resultado só pode ser positivo”.
Sobre Matthew McConaughey (Clube de Compras Dallas), o cineasta comentou que precisava de uma pessoa comum no papel principal para que os espectadores se identificassem e acompanhassem a história pelos olhos dela. “Matthew possui essas qualidades e ele é uma presença carismática fenomenal. Estou muito animado com sua atuação, que é extraordinária”, garantiu.
Além de Caine e McConaughey, Interestelar será estrelado por Jessica Chastain (A Hora Mais Escura), Anne Hathaway (O Diabo Veste Prada), Casey Affleck (Medo da Verdade) e Wes Bentley (Beleza Americana).

Fonte: Cinema em Cena

Tuesday, March 27, 2012

Chocolate - Meninas dão porrada!



Nem só de maquiagem e creminhos vive uma mulher... gosto de um monte de coisas do mundo masculino, dentre essas, filmes de porrada! A algum tempo atrás vi um ótimo, "Chocolate" (também conhecido como Chocolate Fighter) de 2008. Muito bakana porque a protagonista é uma menina que bate por metro quadrado!

O roteiro é mais ou menos e explico: praticamente não temos filmes em que a protagonista seja o ás da luta marcial e quando acontece, a garota é autista. Nada contra, que fique claro, mas por que a garota precisa ser especial para ser uma foda em lutas? Mais a frente do filme, vemos que ela é inigualável e não existem oponentes para ela... Até que surge um... que para ser oponente, é também um garoto especial. Precisa ser assim? Apesar disso,  o roteiro tem sacadinhas engraçadas e um personagem "escada" (Moon) que é bem legalzinho. Salva!




O que verdadeiramente me impressionou foi a técnica de luta para cinema! Conta-se que tiveram muitos problemas de produção das sequências, já que haviam de fazer adaptações para que a garota pudesse "encarar" os caras de verdade, ou pelo menos parecer de verdade. Mas JeeJa Yanin (Zen adolescente) dá conta do recado!




A edição é bem bakana, rápida como deve ser, com vários cortes e sequências ótimas. Os momentos "on the beat" (em que trilha e corte aparecem juntos) acontecem bastante, contribuindo para a ação. Mas o legal mesmo são as sequencias finais de batalha (vira isso mesmo), onde não exite trilha sonora, somente  efeitos de som que acompanham a luta e os cortes dados por várias câmeras. Vale uma sequencia feita nas paredes de um prédio (!), que me lembrou muito o video game Shinobi (o de fliperama, que fique claro), porque não para de sair gente pelas janelas e portas do lado externo do prédio. Muito bom!


Os tailandeses não economizam para fazer cinema de artes marciais, mesmo não tendo orçamentos gigantescos como os americanos. Entretanto, isso não impedirá que você veja cenas incríveis em vários ângulos de câmera e com direito um momento lúdico: o sonho 3d de vídeo game que Zen tem pouco antes de descobrir que sabe mesmo lutar!


Sinopsezinha: Zin, uma mulher de beleza exótica e parte da máfia tailandesa, se apaixona por Masashi, um gangster japonês, de passagem pela Tailândia. 

Quando o chefe (e namorado) de Zin descobre que está sendo traído, o bicho pega! Zin, temerosa, manda Masashi voltar para o Japão. 

Grávida, foge para ter sua filha em paz. Assim que a criança nasce, Zin descobre que a filha é autista e deixa tudo para viver exclusivamente para a garota. Contudo, a menina parece ter uma grande atenção para as artes marciais. Ela desenvolve seu dom, mostrando reflexos rápidos e absorvendo tudo o que vê. Lógico que é muito mais que isso... mas vale a pena, então procura pra ver!

Beijos e até o próximo <3

Monday, February 06, 2012

DUAS VEZES SPIELBERG


O primeiro filme realizado por Steven Spielberg foi a excepcional produção feita para televisão “Encurralado”, de 1971. Já nesse primeiro trabalho era possível dizer que o cinema estava diante de um talento incalculável.

Analisando a obra do cineasta é possível constatar que, assim como seus amigos Martin Scorsese, George Lucas, Brian De Palma e Francis Ford Copola, ele se trata de um apaixonado pela sétima arte, um verdadeiro nerd do cinema. Fato comprovado pelas suas duas produções recentes, “Cavalo de Guerra” e “As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne”.

CAVALO DE GUERRA

Contradizendo a maioria das críticas preciso dizer que gostei, e muito, deste épico de Spielberg.

Inspirado no livro de Michael Morpurgo, o filme acompanha a odisséia do cavalo Joey durante a Primeira Guerra Mundial. Esteticamente Cavalo de Guerra é um filme à moda antiga, onde ele utiliza a magnífica fotografia de seu parceiro Janusz Kaminski, para fazer uma bela homenagem ao cinema de mestres como John Ford e David Lean.

Freqüentemente acusado de sentimentalismo o cineasta destila aqui aquilo que prefiro entender como humanismo, assumindo todos os riscos que isto significa na nossa sociedade sínica e arrogante.

AS AVENTURAS DE TINTIM

Criado pelo cartunista belga hergé no final da década de 20, o jornalista tintim povoa a mente de steven spielberg a mais de 30 anos. Ele esperou o momento e a técnica exata para criar um filme esplêndido.

Em seu “As Aventuras de Tintim: O segredo do Licorne”, ele uniu duas histórias diferentes do personagem em uma só. A trama mostra o jornalista investigando o mistério em torno de uma réplica de um navio chamado Licorne. A busca leva ele e seu cão Milu a conhecerem o Capitão Haddock, e juntos precisam encontrar o segredo que a miniatura guarda antes do maléfico Rackham.

Tintim marca também a união de dois gênios da engenharia cinematográfica, Steven Spielberg e Peter Jackson. Realizado com a técnica de motion capture, a mesma que deu vida ao Gollum de “O Senhor dos Anéis”, a animação consegue se aprimorar onde outras produções falharam, seus personagens possuem expressões faciais e corporais extremamente realistas.

Acima de qualquer coisa “As Aventuras de Tintim” é um retorno do cineasta ao gênero que o consagrou no início de sua carreira, ou seja, um cinema que abraça sem reservas a inocência das cinesséries da década de 30 e 40.

Para quem gosta de cinema, do bom cinema para ser mais exato, ter Steven Spielberg de volta às telas é mais do que uma oportunidade de ver o trabalho de um mestre, é um privilégio.

Thursday, December 22, 2011

QUE VENHA 2012!


Esta semana duas das mais esperadas produções cinemtográficas para o próximo ano ganharam novos trailers. "Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge" e "O Hobbit: Uma Jornada Inesperada". Pequenas mostras da excelência de dois filmes que podem fazer de 2012 um anos inesquecível. Confira abaixo os dois trailers:

Wednesday, December 21, 2011

Expectativas para 2012!


Um dos filmes de 2012 mais aguardados pelos membros deste blog!!!

Sunday, December 11, 2011

Arte é um ato de fé!


O artista é o sujeito que empresta, por algumas horas, seu corpo e alma aos outros. É através deles que o público pode se afastar do seu próprio cotidiano e contemplar e refletir sobre o viver. Ou seja, é pelos processos de identificação e projeção que usufruímos de qualquer experiência artística. No cinema isto se torna mais potente devido a sua linguagem (cunhada pela cultura ocidental) e seu aparelho visual.  Entramos de maneira mais profunda na história e na vida dos personagens na sétima arte. Os bons filmes são aqueles que nos fazem sentir e viver suas histórias.

Mas ser veiculo para outras vidas pode ser uma tarefa esvaziante e angustiante. O artista pode se perder nas identidades que vive perdendo assim essência de si. Para o artesão das artes questionar a identidade é questionar o próprio trabalho, o artista em estado puro é o seu trabalho e suas múltiplas facetas. (Deixemos claro, que a identificação indenitária com o próprio trabalho não é exclusividade de quem trabalha com arte. Afinal, todos conhecemos pessoas que são o seu trabalho. Vivem por ele e constroem sua identidade com eles.)

É esta relação do artista com seu trabalho e sua identidade que Selton Mello aborda em “O Palhaço”. A produção, segundo longa do ator, mostra a crise de identidade vivida pelo palhaço Pangaré, filho do dono de um circo meio capenga do interior de Minas. O filme tem um quê de autobiográfico, já que o próprio Selton Mello em uma entrevista a revista TRIP, declarou ter passado por uma profunda crise profissional e de identidade. O filme de maneira leve, e com uma direção segura, tira sua graça dessa crise do protagonista/ diretor. Ironicamente, nada mais engraçado do que um palhaço melancólico. O resultado também é que a jornada de Pangaré acaba “apagando” os outros personagens, que se tornam floreios na narrativa (lhes falta profundidade).

Benjamim (talvez assim como Selton com a profissão de ator) não entende mais porque é palhaço. Nascido no meio, vivendo a vida inteira daquilo, Pangaré/Benjamim não sabe se faz o que faz porque o é ou se o é porque o faz. Esta resposta ele nunca vai ter, e nem precisa pois, como aponta Selton Mello, ser artista é um ato de fé.

Sunday, November 27, 2011

Quando filmes ruins falam com a gente


Como falar de um filme ruim? Para muitos, a pior crítica que se pode fazer de uma obra é dizer nada sobre ela. Nada pior para uma produção artística do que simplesmente não existir aos olhos da sociedade. Não valer o esforço nem de escrever, parcas linhas que sejam sobre ela. Não vamos nos enganar. Em tempos “digitais”, e suas facilidades de produção, podemos afirmar que esta categoria de filmes, os mediocramente nulos, é a mais vasta de todas (Todos os anos são lançados de acordo com o site IMDB mais de 19 mil filmes!!! E quantos deles você viu?). A cada temporada um mar de filmes péssimos são produzidos e (pior!!) exibidos.
Mas, às vezes, alguns filmes ruins merecem uma parada e uma reflexão. Já que através deles, podemos descobrir os possíveis caminhos para uma boa produção. Apontando e aprendendo com seus erros. Longe desse humilde projeto de crítico que vos escreve, acreditar que exista apenas uma maneira correta de fazer cada filme (e que minha maneira é a correta), mas mesmo assim vale o exercício da reflexão, pois assim buscamos e entendemos melhor os limites da linguagem. Essa discussão da qualidade, e da falta dela, nos ajuda em última instância a compreender melhor o nosso objeto e a nós mesmo.
Toda esta introdução (o que em crítica já é um grave defeito, que chamamos de clássico “nariz de cera”) para falar sobre o documentário “Reidy – A construção da Utopia”, dirigido por Ana Maria Magalhães. A produção é um documentário sobre o arquiteto franco-brasileiro Affonso Eduardo Reidy, um dos mais instigantes e, talvez, ainda atuais arquitetos modernistas. Nome escondido, como muitos outros, pela sombra do monumento hylander Oscar Niemeyer.
Talvez uma das maiores dificuldades de uma produção brasileira que se propõe falar de arquitetura seja tornar consciente, a nós leigos, a importância e complexidade da realização arquitetônica. Ou seja, explicar o que é arquitetura. Afinal, apesar de lideramos com “arquiteturisses” todos os dias, não nos darmos conta de sua importância para nosso dia-dia. Não vemos como o espaço construído direciona e ao mesmo tempo reflete o ser, o estar e o devir no mundo. É fácil? Não! Mas este é o desafio de falar sobre arquitetura, ou sobre qualquer categoria diretamente ligada a filosofia da estética (como o que? O cinema!). E é esse ponto fundamental que a diretora parece não se preocupar. O foco fica excessivamente em filosofar sobre a utopia e o mundo, que Ana Maria Magalhães se esquece de discutir, e de mostrar, a arquitetura. 
Ironicamente o filme parece entender tão pouco do seu objeto, que não consegue criar como um bom projeto “arquitetônico”, ou seja, uma forma que reflita o seu conteúdo. Por isso, as imagens e a montagem não falam nem refletem a genial arquitetura e o urbanismo humano de Reidy. O excesso de movimento nas imagens, a ligação pouco clara entre falas, o não desnudamento do que há por trás dos projetos não deixa a arquitetura falar por si. Não sou arquiteto (apenas por osmose, pois sou casado com uma), ou conhecedor, ou mesmo estudioso da obra de Reidy, ou de qualquer outro. Mas acredito que os pontos iniciais para se falar sobre arquitetura sejam o mesmo para se falar de qualquer arte, sensibilidade e processo de conscientização.
 Afinal, mesmo sabendo muito pouco sobre o assunto somos (todos nós não arquitetos) “os críticos ideais” de qualquer projeto, pois somos nós, nas lições do próprio Reidy, o objeto da arquitetura (ou de seu usufruto). Somos o equivalente para arquitetura dos “leitores ideais” da literatura. A escala humana dos projetos transformados em realidade. É verdade que deveríamos melhorar nossos processos de conscientização em relação as questões arquitetônicas. Deveríamos entender melhor como o espaço a nossa volta, como o construído e seus vazios, nos complementam, direcionam e nos impactam. Mas mesmo assim por sermos usuários dos projetos, temos o direito, e o dever, de falar o que achamos dos projetos.
Da mesma forma no processo de ver um filme. Uma produção cinematográfica deve sempre, como função social, nos fazer entender sobre nós e o mundo. Entender a questões da nossa sociedade e do objeto que nos apresenta. Mas saímos do filme sobre Reidy sem entender quem foi ou que foi Affonso Reidy. Pior! Saímos do filme achando arquitetura algo muito distante e abstrato, quando na verdade essa é das atividades humanas e filosóficas das mais concretas.

ps: Mas pensando bem uma produção que sucinta tanta reflexão e um texto tão “grande”, possui seus méritos. Certamente, para mim, “Reidy – A construção da Utopia” não se encaixa na categoria dos filmes esquecíveis. Suas irregularidades mexeram comigo. 

Thursday, November 17, 2011

A maneira como a sociedade, e as pessoas, constroem suas relações reflete-se no espaço privado e público das metrópoles. Seguindo essa premissa o diretor argentino Gustavo Taretto desenvolve, no longa “Medianeras”, uma leve história de amor e solidão. Taretto se mostra, antes de tudo, um apaixonado por Buenos Aires. Sua visão bela e crítica sobre a cidade são típicos frutos de uma relação duradoura, rica construída entre a atração e rejeição, ódio e amor, necessidade e vontade. De quem conhece por dentro e não esconde ou se desespera com os defeitos, mas os entende. A produção, que é baseada em um curta de mesmo nome de 2005, conta a história de dois vizinhos solitários que se cruzam constantemente, mas não se conhecem. Martin e Mariana moram na mesma rua, sofrem de solidão, se sentem sufocados pela cidade e sua escala e procuram um ao outro. Talvez esse seja o grande furo da lógica do roteiro de Taretto, que cada um tem tampa para sua panela. Afinal, Martin e Mariana descobrem
ao longo do filme que cabe a eles romper com o isolacionismo construído pela cidade. Não é o destino ou o outro que vai te tirá-los da solidão. Eles ajudam, mas são quase um gracejo da vida. Tanto Martin quanto Mariana devem construir, na clandestinidade que seja, suas janelas e conexões para o mundo e para o outro. A partir daí achar o “Wally”, de Mariana, é apenas uma questão de escolha. Como em “500 dias com ela” o longa se constrói em ciclo. É montado de maneira há ter na cidade seu maior personagem, a cola e o abismo das vidas. A cidade hipermoderna é ao mesmo tempo racional e anárquica, aproxima e afasta, regula e liberta. Outra referencia de Tarretto (explicita no DVD que Martin leva para todo lado) é Jaques Tati. Talvez o melhor cineasta que captou a difícil, e sutil, relação do homem com seu espaço urbano. Gustavo não consegue(e nem pretende) a contundência da crítica de Tati, mas faz um filme que diverte e reflete sobre seu tempos. Recomendado!

Thursday, June 16, 2011

Haikai animado - My Neighbors the Yamadas (1999)



O haikai é uma forma de poesia japonesa da qual gosto muito. Ela é bem curta, valorizando a objetividade e a concisão do tema escolhido. Contudo, o fato de ser pequena não a torna simplória, pelo contrário, o haikai costuma fazer a gente pensar bastante e sempre traz em si simplicidade e profundidade ao mesmo tempo.

É exatamente o que acontece nessa animação do Studio Ghibli. "My Neighbors the Yamadas"  (Hōhokekyo Tonari no Yamada-kun) é uma comédia familiar apresentada num estilo nada usual do já consagrado estúdio. Baseado no mangá "Yonkoma Nono-chan" de HIsaichi Ishii,  "My Neighbors the Yamadas" tem uma expressão diferenciada: o diretor Isao Takahata queria o estilo da aquarela, ao invés da tradicional pintura em celulose. Para tanto, Takahata substituiu as técnicas, optando pelo formato digital. Por isso "My Neighbors the Yamadas" é a primeira animação do Studiio Ghibli a ser totalmente finalizada por computadores. 

Como em um haikai, a forma simples foi escolhida, os traços não são rebuscados (como na maioria das  animações do estúdio), a técnica de aquarela dá um aspecto de obra inacabada e o branco imperante ao fundo do desenho trazem o espectador mais para perto do roteiro do filme.

Este, por sua vez, é delicadamente profundo, apresentado pelo olhar de uma criança, Nonoko, a filha mais nova da família. Ela nos introduz a seu ambiente familiar através de sua avó, numa demonstração de como funciona a logística da família japonesa. Então introduz sua mãe, a si mesma, a seu pai e irmão. São pequenas histórias do dia-a-dia, contadas de maneira muito engraçada, que nos fazem refletir sobre nossas próprias vidas. Alguns haikais dos mais famosos poetas japoneses também aparecem entre os capitulos da narrativa, dando o tom filosófico do filme.

A trilha sonora, composta por Akiko Yano, é também divertida e em grande parte do filme é levada pelo piano e voz, dentro de uma música tema. Algumas peças clássicas foram interpretadas pela Orquestra Filarmônica de Câmara da República Checa, conduzidas pelo Maestro Mario Klemens. Os efeitos sonoros são trabalhados também de forma simples, compondo bem o cotidiano da família Yamada.


Apesar das críticas terem sido boas à época de seu lançamento, não foi um filme de grande bilheteria. Contudo, a animação recebeu o "Prêmio de Excelência para a Animação" em 1999, no "Japan Media Arts Festival".
 
"My Neighbors the Yamadas" ganhou meu coração ao contar a vida um tanto louca dessa família. Podemos ver de tudo, críticas sociais, filosofia, relações familiares... tudo regado com muito humor e apresentado  de forma realista. Mostra o melhor: que a vida familiar pode ter histórias comuns a todos, atravessando fronteiras culturais. Uma delícia que vale a pena ser vista e revista! 

Tuesday, May 17, 2011

Tintin está Chegando

Criado pelo cartunista belga Hergé, Tintin é um jovem e destemido repórter que viaja pelo mundo combatendo o crime, ao lado de seu cachorro, Milou, e outros amigos. O filme será dirigido pelo mestre Steven Spielberg e produzido pelo gênio Peter Jackson (diretor de “O Senhor dos Anéis”). Impossível expectativa maior. Para matar a curiosidade segue abaixo dois cartazes e um teaser trailer.

 



Sunday, May 15, 2011

Paz não é uma Opção!

Está chegando mais um capítulo da saga X-Men. First Class conta como o Professor Charles Xavier e Eric Lensherr, ou melhor Magneto, criaram juntos a escola para mutantes. Depois do Irregular X-Men Origens - Wolverine, a espectativa é de um filme melhor. Bom pelo menos o trailer é interessante.



Wednesday, September 22, 2010

Cinematógrafo Se Meu Apartamento Falasse

Confira o Cinematógrafo, produzido pelo programa Agenda da Rede Minas, que esta semana prestou uma homenagem aos 50 anos do filme "Se meu Apartamento Falasse", do mestre Billy Wilder.


http://www.redeminas.tv/centro-de-midia/agenda/se-meu-apartamento-falasse

Wednesday, December 23, 2009

“O VERDADEIRO SENTIDO DO NATAL OU MAIS UMA HISTÓRIA DE PAPAI NOEL”



Texto: Fernando Tibúrcio


Se você me perguntar qual o verdadeiro sentido do natal, vou me valer da bela animação “O Expresso Polar”, dirigida por Robert Zemeckis, e te responder com outra pergunta. Você já ouviu hoje o som do mágico guiso de natal?


Uma das maiores doenças da contemporaneidade foi transformar o natal numa festa piegas e hipócrita. O consumismo desenfreado e a pequenez humana tomaram conta do que significa esta data.


Festa cristã o natal traz em sua essência alguns símbolos quase imutáveis como o Papai Noel. O problema é que a maioria das pessoas não sabe e nem se interessa pela origem deste mítico personagem, ligando-o apenas à entrega de presentes.


O bom velhinho na realidade é uma transposição da figura de São Nicolau de Mira para nossa festa de natal. Nascido na Turquia no século III e conhecido como acolhedor de pobres e principalmente de crianças este santo ganhou as vestes (se eram vermelhas ou não isto pouco importa), e o nome de Papai Noel.


Esta semana tive a grata oportunidade de entrevistar o frei Cláudio Van Balen, Vigário da Igreja do Carmo em Belo Horizonte. Apesar de ligado à Igreja Católica ele é uma pessoa de mente aberta, sem os dogmas e fundamentalismos que regem a maioria das religiões.


Para explicar a importância da árvore de natal o frei citou o profeta Isaías: “Da cepa brotou a rama. Da rama brotou a flor”, segundo frei Cláudio isto significa que de um tronco velho nasce algo novo, que Jesus nascendo de um homem (José) e de uma mulher (Maria) representa um novo caminho que surge no meio dos homens. Ou seja, a “Boa Nova”.


“Natal é acima de tudo renascimento, é uma festa da natureza do cosmos. É quando todos os elementos do universo estão em harmonia”. Afirma o frei. E ele vai além, “Jesus não está ligado e nem fundou nenhuma religião. Ele iniciou um movimento de confraternização entre os homens, baseado na fé. Não esta fé dogmática e fundamentalista, mas numa fé racional. Isto tudo parece que foi esquecido”.




“Mas eu digo a vocês que estão me ouvindo: Amem os seus inimigos, façam bem aos que os odeiam, abençoem os que os amaldiçoam, orem por aqueles que os maltratam. Se alguém lhe bater numa face, ofereça-lhe também a outra. Se alguém lhe tirar a capa, não o impeça de tirar-lhe a túnica... Como vocês querem que os outros lhes façam, façam também vocês a eles. Que mérito vocês terão, se amarem aos que os amam?"


Lucas 6:27-36


Este pensamento me remete imediatamente a outras proféticas palavras:



“Imagine se não existisse nenhum país...

Nenhum motivo para matar ou morrer

E nem religião, também,

Imagine todas as pessoas

Vivendo a vida em paz.

Você pode dizer que eu sou um sonhador

Mas não sou o único

Espero que um dia você se junte a nós

E o mundo será um só”.


John Lennon



Então já ouviu o som do m
ágico guiso de natal hoje?









Monday, December 21, 2009

FINALMENTE CHEGOU!!!

Texto: Fernando Tibúrcio

Para quem viveu a década de 80 em toda sua essência, uma ótima notícia é o lançamento – FINALMENTE – da trilogia Karatê Kid em DVD. Os três filmes estrelado por Ralph Macchio e Pat Morita ganham um merecido box. O destaque são para os extras que estão no DVD do primeiro Karatê Kid (Especial Karatê KidI e II; A Arte do Karatê; A Música de Karatê Kid e a Vida do Bonsai), uma verdadeira viagem no tempo para os fãs deste eterno clássico.

P.S.: Prometo uma resenha sobre o filme em breve. Com certeza ele merece!

Tuesday, December 15, 2009

ALMODÓVAR NUNCA ERRA?

Texto: Fábio Ávila Arcanjo

As verdades absolutas são quase sempre nocivas em qualquer tipo de texto, pois elas partem de um clichê e generalizam determinado juízo de valor deixando o espírito crítico contaminado. Geralmente, é possível encontrar pessoas que utilizam tais verdades para analisar trabalhos de alguns diretores. Afirmações como “Os grandes filmes do Spielberg estão no passado”; “Woody Allen sempre acerta” são lugares-comuns e não contribuem para a construção de uma análise bem feita.

Todo esse prólogo tem como objetivo tentar evitar cair nesses clichês ao analisar o novo filme de um diretor idolatrado cujo conjunto da obra justifica todo esse culto que é prestado. Estou falando de Pedro Almodóvar e seu novo grande filme, “Abraços partidos”. A frase feita geralmente atribuída ao espanhol é a seguinte: “Almodóvar nunca erra”.

E querem saber de uma coisa? É muito difícil contestar essa afirmação, ainda mais pra mim que sou fã confesso da obra desse genial cineasta. Muitas pessoas afirmaram que “Abraços partidos” esta longe de ser o seu grande trabalho. Apesar de concordar relativamente com a afirmativa, é inegável que o filme tem grande valor em sua extensa filmografia. Elementos característicos estão mais uma vez presentes, como: paixões avassaladoras, reviravoltas surpreendentes, amores, desamores, traições. Há um diálogo muito intensificado com “A Má Educação” (2004), em minha opinião, um dos melhores filmes do diretor, pois “Abraços Partidos” é extremamente metalingüístico, na medida em que ele analisa o fazer cinema.

O filme tem como figura central, uma personagem masculina, embora a participação da musa do cineasta, Penélope Cruz, seja muito significativa. Lluís Homar, em atuação impressionante, interpreta Mateo Blanco, um cineasta que fica obcecado por sua atriz principal, Lena e acaba vivendo um romance tórrido com ela. Porém, um acidente de carro muda toda a trajetória do diretor que acaba ficando cego. A perda da visão, sentido vital para um diretor de cinema, configura-se em uma mudança na identidade de Mateo que acaba adotando um nome peculiar: Harry Caine e se dedica a escrever, ajudado por sua assistente Judit, a excelente Blanca Portillo e pelo filho dela, Diego (interpretado por Tomás Navas). A entrada de um misterioso personagem intitulado Ray X é o catalisador para que muitas verdades surjam à tona. A cena em que Judit revela para Mateo e Diego alguns segredos que estavam enterrados é impressionante e demonstra a grande capacidade que Almodóvar tem em dirigir seus atores. Blanca Portillo está impecável, mas o destaque fica por conta de Lluís Homar, que havia feito uma participação pequena, mas significativa em “Má Educação”. Em “Abraços partidos”, o ator espanhol confere uma atuação que é digna de louvor.

A produção faz diversos saltos no tempo, o que não atrapalha em nada a fluidez do roteiro. Apesar de possui uma aura trágica, existe um alívio cômico que se faz presente no filme que Mateo Blanco dirige, pois se trata de uma comédia e o diretor faz um interessante contraponto entre a narrativa dramática e a cômica. Inevitável não lembrar de Melinda e Melinda (2005), do grande Woody Allen, mas aqui, diferentemente do trabalho do cineasta americano, Almodóvar não foca as suas lentes para a diferenciação entre os dois estilos, ele apenas utiliza esse elemento para enriquecer a sua bem acabada estória.

Eu costumo dizer que tenho certa inveja das pessoas que puderam assistir no cinema o lançamento de obras de Federico Fellini, Billy Wilder, Luchino Visconti, entre outros. Porém, é um alívio saber que existem diretores como Pedro Almodóvar, que além de atenuar esse tipo de frustração, conseguem transformar o simples ato de assistir um filme em algo indescritível.